51% dos adultos estão inadimplentes: qual dívida deve ser paga primeiro?

O Brasil chegou a julho de 2026 com 83,9 milhões de consumidores inadimplentes, o equivalente a 51% da população adulta, segundo a Serasa Experian. O número representa um novo recorde da série histórica e mostra a dimensão do desafio enfrentado pelas famílias brasileiras para equilibrar o orçamento.

Somadas, as dívidas negativadas alcançaram aproximadamente R$ 586,5 bilhões. Cada consumidor inadimplente acumulava, em média, cerca de quatro pendências, que totalizavam R$ 6.987,23 por CPF.

Quando existem várias contas atrasadas ao mesmo tempo, porém, tentar pagar todas de uma vez pode não ser possível. Nesse cenário, estabelecer prioridades pode evitar que as dívidas mais caras cresçam enquanto o consumidor direciona recursos para contas que teriam menor impacto financeiro.

Não existe uma ordem única para todas as dívidas

Embora seja comum recomendar que as dívidas com juros mais altos sejam pagas primeiro, a decisão precisa considerar também as consequências práticas do atraso.

Contas relacionadas a serviços básicos, por exemplo, podem precisar de atenção imediata caso exista risco de interrupção. Da mesma forma, financiamentos que envolvem um bem dado como garantia exigem análise específica, já que a inadimplência pode trazer consequências que vão além da cobrança de juros.

Por isso, antes de decidir o que pagar, é necessário reunir todas as pendências e observar pelo menos três informações: quanto ainda é devido, qual é o custo efetivo da dívida e o que acontece caso ela continue em atraso.

Cartão de crédito e cheque especial merecem atenção

Entre as dívidas financeiras, cartão de crédito e cheque especial costumam exigir atenção especial devido ao custo do crédito.

Quando o consumidor não consegue pagar integralmente a fatura do cartão e entra no rotativo, o saldo restante passa a gerar encargos. O cheque especial também funciona como um crédito de curto prazo e pode transformar pequenos déficits na conta corrente em uma dívida relevante quando utilizado por períodos prolongados.

Nesses casos, a primeira providência não precisa ser necessariamente quitar todo o valor de uma só vez. Consultar as condições oferecidas pelo credor para parcelamento ou renegociação pode permitir a substituição de uma dívida de curto prazo por outra com parcelas mais previsíveis.

O ponto central é comparar o Custo Efetivo Total (CET) das alternativas, e não apenas o valor da prestação. Uma parcela mensal menor pode parecer vantajosa, mas um prazo muito maior pode elevar o valor total pago ao final do contrato.

E os empréstimos que já estão em andamento?

Empréstimos pessoais também devem entrar na análise, principalmente quando apresentam taxas elevadas ou já estão atrasados.

Antes de contratar um novo crédito para quitar uma dívida existente, é necessário verificar se a troca realmente reduz o custo financeiro. Contrair um segundo empréstimo sem encerrar ou reduzir a obrigação anterior tende apenas a aumentar o comprometimento da renda.

Uma estratégia possível é a troca de uma dívida mais cara por uma linha com juros menores. É nesse contexto que modalidades vinculadas à renda do trabalhador podem entrar na comparação.

Para trabalhadores com carteira assinada, por exemplo, o consignado privado, por meio do Crédito do Trabalhador, permite que as parcelas sejam descontadas diretamente da folha de pagamento. Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, o programa foi estruturado também para permitir a substituição de dívidas como crédito pessoal sem garantia, carnês de financiamentos, rotativo do cartão e cheque especial por uma alternativa potencialmente mais barata.

A troca, entretanto, só faz sentido quando as condições são efetivamente melhores. Taxa de juros, CET, número de parcelas, valor total a pagar e impacto sobre o salário mensal precisam ser avaliados antes da contratação.

No Crédito do Trabalhador, até 35% do salário considerado para a operação pode ser comprometido com as parcelas. Como o pagamento ocorre diretamente pela folha, assumir uma prestação elevada pode reduzir a renda disponível para despesas mensais durante todo o período do contrato.

Renegociar pode ser melhor do que simplesmente quitar

Quem possui algum dinheiro disponível também precisa avaliar como utilizá-lo. Empregar todo o valor para eliminar uma dívida nem sempre será a alternativa mais vantajosa se outra pendência continuar acumulando encargos mais elevados.

Antes do pagamento, vale procurar os credores e solicitar propostas de renegociação. Descontos para quitação, redução de juros, parcelamentos e portabilidade podem alterar significativamente a ordem de prioridade.

A comparação deve ser feita com valores concretos. Se uma dívida de R$ 5 mil pode ser quitada por R$ 3 mil após uma negociação, por exemplo, a decisão financeira pode ser diferente daquela tomada apenas olhando o saldo originalmente informado.

Organização começa pelo diagnóstico

Com uma média próxima de quatro dívidas por consumidor inadimplente, organizar as pendências antes de começar a pagar ganha importância no atual cenário brasileiro.

Uma regra prática é identificar primeiro as contas cujo atraso pode gerar consequências imediatas e, em seguida, direcionar esforços às dívidas de maior custo financeiro. Depois disso, empréstimos e demais compromissos podem ser renegociados de acordo com as condições oferecidas e a capacidade de pagamento.

Mais importante do que simplesmente trocar uma parcela por outra é garantir que a nova estrutura caiba no orçamento. Reduzir juros pode ajudar a interromper o crescimento da dívida, mas a recuperação financeira depende também de evitar novos compromissos acima da renda disponível.


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