A carta de Paulo a Filemom é uma das mais curtas e, ao mesmo tempo, das mais provocadoras do Novo Testamento. Lida superficialmente, parece legitimar a escravidão. Lida com profundidade hermenêutica, é uma bomba-relógio que explode as relações hierarquizadas e anuncia a era das relações igualitárias em Cristo.
Cartas para um Novo Mundo
Estamos terminando uma jornada lendo as cartas do apóstolo Paulo como “cartas para o novo mundo”. Quando falamos em cartas para o novo mundo, falamos primeiro do novo mundo inaugurado pela ressurreição de Jesus. Quando Jesus ressuscita dos mortos, inaugura-se um novo tempo, uma nova era — o novo mundo.
Paulo é quem atravessa fronteiras geográficas, étnicas, sociais, políticas e culturais, levando a mensagem da ressurreição com a pretensão de torná-la universal. Nas palavras de Jesus, o testemunho do evangelho seria estendido desde Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra.
A Comunidade como Carta Viva
A nossa comunidade do Cristo é esta carta para o novo mundo. O mundo lê o evangelho através do que vê nas nossas vidas e na nossa experiência comunitária. Chegamos hoje à última das treze cartas do apóstolo Paulo: a carta de Paulo a Filemom — se não é a mais difícil, é uma das mais difíceis.
É uma pequenina carta, escrita quando Paulo está preso em Roma, por volta do período entre 62 e 64. São apenas 25 versículos, e praticamente trata de um único assunto.
A História de Onésimo
Paulo escreve a Filemom, um dos seus filhos na fé e líder da igreja em Colossos, dizendo: “Eu ouço do seu amor, ouço da sua fé. Você é meu amado; a igreja que está na sua casa também.” Então ele diz algo surpreendente: manda de volta um escravo fugitivo chamado Onésimo.
Onésimo era um escravo fugitivo que Paulo conheceu na prisão. Paulo escreve a Filemom: “Eu estou mandando de volta a você o seu escravo fugitivo — não mais como escravo, mas como irmão.” Poderia, pela autoridade que tem em Cristo, exigir. Mas não exige: faz um apelo ao amor.
“Receba Onésimo como se estivesse recebendo a mim mesmo. Ele causou algum prejuízo? Põe na minha conta; eu vou cuidar disso.”
Apóstolo Paulo — Carta a Filemom
Uma Carta Embaraçosa
O problema é evidente: o que está escrito nessa carta é que há um escravo fugitivo, e Paulo manda que o escravo retorne ao seu senhor, correndo o risco de receber uma punição severa — talvez até ser condenado à morte. Quando lemos essa carta de maneira desatenta e apressada, corremos o sério risco de lê-la como uma carta que legitima a escravidão.
Imaginemos isso nos nossos dias: alguém chega à nossa comunidade dizendo que fugiu de condições análogas à escravidão, e nós dizemos: “Como é o nome do seu senhor? Ele é líder aqui da nossa igreja. Volte.” É inimaginável. É inadmissível. Mas é isso que, numa leitura superficial, a Bíblia parece dizer.
A Necessidade de Uma Nova Leitura
Essa carta do apóstolo Paulo precisa receber um melhor tratamento hermenêutico. Ela precisa dar um salto do seu momento histórico, do seu contexto social, político e econômico — para que ela ilumine relações mais gerais, mais universais e mais atemporais.
Nesse sentido, a carta de Paulo a Filemom pode ser lida a partir da seguinte afirmação: o evangelho é uma profecia contra todas as relações hierarquizadas, porque, em Cristo Jesus, inaugura-se a era das relações igualitárias.
Iguais Diante do Mesmo Pai
O evangelho questiona todas as relações de hierarquia entre os seres humanos. Em Cristo Jesus, só existe relação igualitária — somos irmãos e irmãs. Não há senhor e escravo. A fé cristã diz que não somos iguais apenas entre nós, como diziam os estoicos. A fé cristã diz que somos iguais diante de Deus, porque há um só Deus e Pai de todos.
“Há um só Deus, Pai de todos.”
Efésios 4:6
A igualdade cristã não é apenas horizontal — é vertical. É na nossa relação com Deus, o Pai, que somos iguais. Somos irmãos e irmãs porque temos o mesmo Pai. Não é porque nos reconhecemos como iguais; nós nos reconhecemos como iguais porque temos o mesmo Pai.
A Novidade do Cristianismo
O estoicismo já pregava a igualdade. Sêneca dizia que todos — senhores, nobres e pobres — somos uma única comunidade. Mas o cristianismo vai mais longe: somos iguais não porque nos reconhecemos como tais, mas porque temos o mesmo Deus e Pai.
Paulo instala uma bomba-relógio que explode no mundo romano, de tal maneira que todas as relações de escravidão no Império Romano são ressignificadas a partir da entrada do cristianismo. Os historiadores confirmam isso: na fé cristã, escravos e senhores são irmãos — algo inédito no mundo antigo.
A Bíblia como Livro que Precisa Ser Atualizado
O grande desafio da igreja contemporânea é olhar a Bíblia como um livro que precisa ser relido e ressignificado — para que os princípios de vida que esse livro encerra saltem das páginas, promovendo libertação, justiça e relações de amor no nosso mundo.
A ética bíblica reflete uma estrutura de sociedade daquele tempo. Não dá para pegar um texto escrito há quatro mil anos e aplicá-lo literalmente, sem perceber que, nas suas entrelinhas, na revelação a respeito do Cristo ressurreto, a Bíblia explode promovendo uma grande revolução. Atualizar a Escritura não é desatualizá-la. É reconhecer que não somos seguidores de um livro, mas de Jesus Cristo — e esse texto é palavra de Deus, que é viva.
Se Eu Fosse Filemom
Se eu fosse Filemom, leria essa carta como um fortíssimo apelo para dar consequência prática à minha fé em Cristo. Para abandonar a zona de conforto que trata a experiência com Cristo como algo individual, particular, de foro íntimo. O evangelho não é entre mim e Deus apenas — em Jesus, ele está redimindo toda a humanidade, toda a família de Deus.
Uma fé que não transborda para ações concretas de justiça e dignidade humana é uma outra experiência espiritual, que não tem a ver com Jesus Cristo ressurreto.
Se Eu Fosse Paulo
Se eu fosse Paulo — se sou a igreja, o pastor, a comunidade de fé, o remetente da carta — a carta me convida ao arrependimento. A reconhecer que convivo pacificamente, e até passivamente, com relações hierarquizadas. Que perpetuo relações de injustiça no meu dia a dia.
Enquanto nós, que ocupamos lugares de privilégio, não admitirmos que esses lugares estão marcados por uma história de injustiça e crimes que nos trouxeram até aqui — não poderemos nos oferecer como parte da solução e da profecia do evangelho para a nossa sociedade.
Cartas Vivas, Não Letras Mortas
Não é mais admissível fazer a transposição literal da Bíblia Sagrada, de dois mil anos para cá. O mundo mudou. Não é possível ler a Bíblia como se não tivéssemos dois mil anos de civilização humana, dois mil anos do Espírito Santo iluminando a igreja.
Se queremos ser cartas para o novo mundo, precisamos ter coragem de enfrentar os pecados estruturais da nossa sociedade: o machismo, a misoginia, o racismo dentro das nossas comunidades. Cuidar das vidas pretas. Cuidar das crianças abusadas. Cuidar das mulheres que sofrem violência todos os dias — muita disso legitimada por versículos. Não é mais admissível.
Eu oro a Deus que a palavra de Deus seja atualizada e exploda no seu coração como uma profecia contra todas as relações hierarquizadas e como um anúncio profético de relações igualitárias.
Ed René Kivitz
Ou somos religião morta para um velho mundo, ou somos cartas vivas para o novo mundo. Cartas vivas anunciam novidades em vez de repetir o que é antigo. Elas atualizam o antigo, para que o antigo, que é vivo, se faça novo — gerando novidades no novo mundo. Que Deus te abençoe, a você e à sua casa. Amém.
Assista na íntegra a mensagem: Cartas vivas contra letras mortas.
Cartas vivas contra letras mortas, por Ed Rene Kivitz na IBAB em 25 de Outubro de 2020


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